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História da Neurocirurgia na Antiguidade

História da Neurocirurgia na Antiguidade

Das primeiras trepanações às bases da neurocirurgia moderna

Visão Geral

A história da neurocirurgia começa muito antes de se compreender como o sistema nervoso funciona. Diferentes sociedades aprenderam a abrir o crânio, cuidar de ferimentos e reconhecer sinais de lesões graves por meio da observação e da experiência. Essas práticas frequentemente conviviam com explicações religiosas e mágicas.

Este resumo percorre esse desenvolvimento desde a Pré-História até a Idade Média, o Renascimento e ideias posteriores. O fio condutor é a relação entre observar o corpo, interpretar o funcionamento cerebral e decidir quando intervir.

Pré-História e Neolítico

Crânios (de 10.000-3.000 a.C) encontrados em diferentes regiões apresentam aberturas compatíveis com intervenções deliberadas. Marcas de instrumentos e características das bordas ajudam a distinguir possíveis trepanações de traumatismos ou alterações ocorridas depois da morte.

Um achado especialmente relevante é a remodelação óssea nas bordas do orifício: ela indica que a pessoa permaneceu viva por algum tempo após a intervenção. Alguns indivíduos sobreviveram inclusive a múltiplas aberturas cranianas.1

Os principais pontos desse período são:

  • Diversidade de técnicas: raspagem progressiva, perfuração e cortes para remover uma porção do osso.
  • Sobrevivência documentada: o reparo ósseo demonstra que nem todos os procedimentos eram imediatamente fatais.
  • Motivações incertas: tratamento de traumatismos, alívio de sintomas e práticas rituais são possibilidades que dependem do contexto arqueológico.
  • Limites da evidência: cicatrização não demonstra cura da doença original, ausência de sequelas ou duração exata da sobrevivência.

A principal contribuição desses achados é mostrar que a intervenção no crânio antecedeu em milênios o conhecimento anatômico sistematizado. As datas do Neolítico variam entre regiões.

Mesopotâmia

Com o desenvolvimento da escrita, receitas e procedimentos passaram a ser registrados em suportes duráveis. Na Mesopotâmia, região que inclui grande parte do atual Iraque, tabuletas em escrita cuneiforme documentam conhecimentos terapêuticos (~2.200 a.C).

Destaca-se Nippur, cidade suméria associada a registros médicos preservados no Penn Museum. Esses documentos mostram que substâncias e formas de preparação podiam ser organizadas e transmitidas por escrito.2

A medicina desse contexto reunia observações práticas e concepções religiosas. A presença de símbolos ligados à cura ajuda a compreender esse universo cultural, mas não revela, por si só, como uma intervenção era realizada ou qual era seu resultado.

O avanço central foi a possibilidade de cumular e compartilhar experiências além da transmissão oral.

Egito Antigo

Contexto cultural

Figuras como Hórus e Imhotep ilustram a proximidade entre cura, religião e autoridade. Imhotep, associado ao faraó Djoser e à pirâmide escalonada de Saqqara, viveu no terceiro milênio a.C. e foi posteriormente venerado como figura ligada à medicina.

Ao mesmo tempo, os papiros mostram uma tradição de descrição de doenças e de observação dos pacientes. Práticas empíricas e rituais podiam aparecer no mesmo conjunto de conhecimentos.

Os principais papiros

DocumentoData aproximadaConteúdo e relevância
Papiro ginecológico de KahunCerca de 1800 a.C.Condições ginecológicas, fertilidade, gravidez e propostas de tratamento.3
Papiro de Edwin SmithCerca de 1700–1600 a.C.Tratado de traumatismos com descrições de exame, avaliação da gravidade e conduta. Foi adquirido por Edwin Smith em Tebas, em 1862.4
Papiro de EbersSéculo XVI a.C.Receitas, preparações medicinais, tratamentos e fórmulas mágico-religiosas. Georg Ebers o adquiriu em 1873.5

As receitas ginecológicas desse período documentam esforços empíricos pioneiros em lidar com fertilidade e gestação, refletindo as primeiras tentativas de intervenção registradas na história médica.

Papiro de Edwin Smith

Os 48 casos preservados apresentam uma sequência reconhecível na prática clínica:

  1. Descrever o ferimento e sua localização.
  2. Examinar o paciente, incluindo inspeção e palpação.
  3. Identificar a lesão a partir dos achados.
  4. Avaliar o prognóstico e a possibilidade de tratamento.
  5. Definir uma conduta e acompanhar a evolução.

O texto distingue condições tratáveis, situações de resultado incerto e lesões consideradas além dos recursos disponíveis. Reconhecer esses limites é um dos aspectos mais marcantes do documento.4

Nos casos relatados no papiro, um ferimento superficial recebe tratamento diferente de uma lesão com afundamento craniano, sangramento e rigidez de nuca. O ponto principal é a associação entre sinais observáveis, gravidade e decisão terapêutica.

Observações anatômicas e cuidado das feridas

O documento traz descrições de suturas cranianas, membranas, líquido associado ao encéfalo e pulsações observadas em lesões abertas. Essas observações não dependiam de um modelo completo do funcionamento cerebral.

Entre as práticas de cuidado mencionadas estão:

  • Aproximação das bordas de feridas com bandagens.
  • Uso de linho, mel, gorduras e outras substâncias em curativos.
  • Aplicação de carne fresca sobre determinados ferimentos.
  • Imobilização de fraturas e técnicas de sutura.

Existe uma distinção clara entre o registro histórico de uma prática e a explicação científica de seu mecanismo. A presença de carne fresca em uma receita, por exemplo, não decorria de um conhecimento biológico sobre a transferência de plaquetas, mas reflete uma tentativa empírica de controlar sangramentos, proteger feridas e favorecer a recuperação tecidual.

Papiro de Ebers e mumificação

O Ebers amplia o panorama para diferentes condições clínicas, com preparações vegetais, minerais e animais, além de encantamentos. Ele evidencia a convivência entre experiência terapêutica e interpretação religiosa.5

A retirada do encéfalo pelas narinas durante a mumificação revela familiaridade prática com o acesso transnasal à cavidade craniana. Tratava-se, contudo, de um procedimento funerário ritual voltado à preservação do corpo, e não de uma intervenção cirúrgica terapêutica em indivíduos vivos.1

Ásia

Índia

A tradição médica indiana clássica está associada a nomes como Charaka, Sushruta e Vagbhata (~500 a.C.).

Os destaques são a sistematização de tratamentos, os instrumentos cirúrgicos, as suturas e a reconstrução de tecidos. A Sushruta Samhita descreve a reconstrução nasal com tecido da face. Retalhos da testa também passaram a integrar a tradição indiana de reconstrução nasal.

Um retalho é uma porção de tecido mobilizada para cobrir uma perda de substância, preservando uma fonte de irrigação sanguínea.

A necessidade de reconstruir narizes esteve ligada, entre outros fatores, a mutilações punitivas e sífilis.6

A Sushruta Samhita contém orientações para o estudo e a dissecação de cadáveres, demonstrando que as restrições culturais e religiosas não impediram a investigação anatômica empírica.7

China e região de Altai

Crânios com possíveis intervenções e cicatrização foram encontrados em diferentes regiões asiáticas, incluindo a China e as montanhas de Altai (2500-2300 a.C). Esses achados sugerem experiências locais de cirurgia craniana, embora os registros não permitam reconstruir todos os motivos, procedimentos e resultados.

Estudos sobre trepanação na China evidenciam intervenções cirúrgicas cranianas antigas, ampliando a compreensão sobre a medicina no leste asiático para além dos tratamentos exclusivamente fitoterápicos e não invasivos.8

Hua Tuo, médico associado ao final da dinastia Han, é uma figura central nos relatos tradicionais sobre cirurgia na China. O episódio em que teria proposto uma abertura craniana para tratar as queixas de Cao Cao é uma narrativa histórica com fortes traços lendários, que não comprova uma operação concluída nem a morte do governante durante o procedimento.9

Esses achados indicam que práticas cirúrgicas empíricas coexistiam com sistemas filosóficos e religiosos locais, desenvolvendo-se em trajetórias próprias ao longo do continente asiático.

Grécia e mundo romano

Hipócrates e a tradição hipocrática

Hipócrates, associado à ilha de Cós nos séculos V–IV a.C., representa uma tradição que valorizava a observação clínica e as causas naturais das doenças. O Corpus Hippocraticum reúne textos de diferentes autores e épocas; não é uma obra de autoria exclusiva de Hipócrates nem de Asclépio, divindade grega da medicina.

No estudo dos traumatismos cranianos, destacam-se a classificação de lesões e o debate sobre indicações de trepanação. Reconhecer diferenças entre fraturas e regiões atingidas permitia orientar a conduta.

Outra contribuição foi o encefalocentrismo: a ideia de que o encéfalo participa das sensações e da inteligência. Essa posição contrastava com concepções cardiocêntricas, como a de Aristóteles, que atribuía ao coração um papel central no intelecto.1

Herófilo de Calcedônia

Herófilo trabalhou em Alexandria, entre os séculos IV e III a.C., em um contexto de investigação anatômica humana. É associado a descrições dos ventrículos, nervos e seios venosos intracranianos.

Seu nome permanece na tórcula de Herófilo, região de confluência de importantes seios venosos. Também se atribui a ele uma distinção inicial entre nervos relacionados à sensação e ao movimento.

Essa distinção histórica não equivale à demonstração experimental moderna das funções das raízes medulares dorsais e ventrais, consolidada muito depois.10

Aulo Cornélio Celso

Celso, enciclopedista romano ativo no início da era cristã, sistematizou conhecimentos médicos em De medicina, registrando descrições de ferimentos, lesões cranianas e formas de acesso ao crânio.

Uma contribuição duradoura é a formulação dos quatro sinais clássicos da inflamação: calor, rubor, dor e tumor. Aqui, “tumor” significa inchaço, e não necessariamente câncer.

A técnica de remover osso por meio de perfurações circulares contíguas antecipou princípios mecânicos que inspirariam o desenho de instrumentos modernos, como a serra flexível introduzida por Leonardo Gigli no final do século XIX.11

Galeno de Pérgamo

Galeno, no século II d.C., reuniu observações clínicas e investigações em animais. Seus trabalhos contribuíram para o estudo do encéfalo, dos nervos e dos efeitos de lesões da medula espinhal.

Seus estudos abordaram estruturas como ventrículos, corpo caloso, meninges, hipófise e pineal, além de experimentos relacionando lesões nervosas e medulares a alterações de movimento, sensibilidade e vocalização.

Galeno reforçou a importância do encéfalo para as funções mentais. Entretanto, suas explicações incluíam modelos de fluidos e “espíritos” circulando por estruturas nervosas, além de generalizações da anatomia animal para a humana. Sua influência prolongada transmitiu tanto observações valiosas quanto interpretações equivocadas.1

Período bizantino: Paulo de Egina

Paulo de Egina, no século VII d.C., organizou um compêndio médico em sete livros. Seu trabalho preservou e sistematizou conhecimentos anteriores, incluindo temas cirúrgicos.

Os principais pontos destacados em sua obra são:

  • Classificação e tratamento de traumatismos cranianos.
  • Técnicas de trepanação e remoção de fragmentos ósseos.
  • Discussões sobre hidrocefalia e lesões da coluna.
  • Descrição de instrumentos e cuidados com feridas.12

Registros do período mencionam o emprego empírico de compressas embebidas em vinho para a limpeza e proteção de ferimentos cranianos, refletindo os cuidados profiláticos possíveis na época.

Paulo de Egina exemplifica a importância dos compêndios na preservação e transmissão do saber cirúrgico entre diferentes períodos e tradições.

Medicina do mundo islâmico medieval

Entre os séculos VIII e XIII, diferentes centros do mundo islâmico tiveram papel relevante na tradução, discussão e ampliação de conhecimentos médicos. Esse trabalho envolveu estudiosos de diferentes línguas, origens e religiões.

Textos clássicos gregos foram traduzidos, comentados e incorporados à prática médica, ao mesmo tempo em que centros islâmicos geraram produção própria, reorganizaram tratados e desenvolveram instrumentos e condutas cirúrgicas inovadoras.13

Avicena

Ibn Sina, ou Avicena (980–1037), foi um médico e filósofo persa. Seu Cânone da Medicina organizou conhecimentos que exerceram influência duradoura, inclusive no ensino médico europeu.14

Avicena notabilizou-se pela observação clínica apurada, pela descrição de condições neurológicas e pela valorização do acompanhamento do doente. A atenção à pessoa e à evolução de seus sintomas é um dos conceitos centrais de sua prática.

Abulcasis

Abu al-Qasim al-Zahrawi, ou Abulcasis (c. 936–1013), atuou em al-Andalus e escreveu o Al-Tasrif. Sua obra reúne descrições e ilustrações de procedimentos e instrumentos cirúrgicos.

Sua obra destaca intervenções para ferimentos cranianos e vertebrais, hidrocefalia e dor, além do emprego de cautérios.15

Nesse contexto, a cauterização consistia na aplicação direta de calor por meio de instrumentos metálicos aquecidos, sendo empregada empiricamente no controle de hemorragias, dores de cabeça e afecções inflamatórias segundo os preceitos humorais da época.

Médicos e cirurgiões

O contexto histórico também reflete uma distinção social entre a medicina erudita e os ofícios manuais de cirurgia, separação que variou conforme a região e antecipou a presença de barbeiros-cirurgiões na Europa, convivendo com a produção de tratados cirúrgicos formais por médicos letrados.

América pré-colombiana

Mesoamérica

Entre os astecas, identificam-se práticas de cuidado como o temazcal, banho de vapor com dimensões terapêuticas, sociais e rituais, além de representações de condições corporais e intervenções cranianas.

Andes e Peru antigo

Os crânios trepanados do Peru antigo fornecem um conjunto expressivo de evidências sobre técnicas e sobrevivência. Esses achados incluem populações anteriores ao Império Inca, além do próprio período inca.

Um estudo comparativo apresentou as seguintes estimativas de sobrevivência prolongada, inferidas principalmente pelo reparo ósseo:16

Amostras analisadasSobrevivência estimada
Período de 400–200 a.C.Cerca de 40%
Algumas amostras de 1000–1400 d.C.Até 91%
Período inca, nos séculos XV–XVICerca de 75%–83%

Os dados sugerem aperfeiçoamento técnico ao longo do tempo, com variações regionais. Sobreviver não equivale a recuperar integralmente a função neurológica, e essas estimativas refletem realidades cirúrgicas próprias, com objetivos, seleção de casos e gravidade de lesões distintos da prática cirúrgica contemporânea.

Europa medieval

Na periodização histórica, a Alta Idade Média corresponde aproximadamente aos séculos V–X, e a Baixa Idade Média, aos séculos XI–XV.

Longe de um período de estagnação médica, a Idade Média preservou e desenvolveu ativamente conhecimentos cirúrgicos. Mosteiros salvaguardaram manuscritos clássicos; rotas de tradução integraram tradições gregas, latinas e árabes; e polos pioneiros como a Escola de Salerno institucionalizaram o ensino médico. Posteriormente, as primeiras universidades europeias incorporaram esses textos, produzindo comentários e registros clínicos sistemáticos.14

O saber cirúrgico medieval combinava a observação empírica de ferimentos com o respeito à autoridade dos textos antigos e preceitos religiosos, direcionando trepanações e intervenções cranianas prioritariamente para o tratamento de traumatismos mecânicos e descompressão.

Renascimento

Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci (1452–1519) investigou anatomia, visão e representação do corpo. Seus desenhos variam em precisão e refletem diferentes fases de trabalho.

Embora seus desenhos iniciais reproduzissem esquemas ventriculares medievais, Leonardo inovou ao aplicar a técnica de injeção de cera nos ventrículos de um encéfalo bovino, obtendo moldes tridimensionais que revelaram pela primeira vez a morfologia ventricular verdadeira com alto grau de fidelidade.17

Andreas Vesalius

Andreas Vesalius, ou Vesálio (1514–1564), deu destaque à dissecção humana e à observação direta em De humani corporis fabrica (1543). Seu trabalho ajudou a revisar descrições tradicionais e a ampliar a precisão anatômica.

Mesmo quando certas ilustrações ainda simplificavam os giros corticais, a prática da dissecação cadavérica estabeleceu um marco: vincular a autoridade anatômica à observação e verificação empírica direta, superando a repetição cega dos textos clássicos.1

Idade Moderna e século XIX

Descartes: modelos mecânicos e dualismo

René Descartes (1596–1650) procurou explicar aspectos do funcionamento corporal por mecanismos físicos. Ao mesmo tempo, distinguiu a mente imaterial do corpo e atribuiu à pineal um papel na interação entre ambos.

Suas hipóteses sobre “espíritos animais”, nervos e ventrículos constituem modelos conceituais históricos.

O modelo mecanicista cartesiano contribuiu para a ciência moderna ao propor explicações físicas para fenômenos biológicos e estimular o teste metódico de hipóteses, integrando a transição para a observação empírica sistemática.

Visão: imagem invertida e cruzamento das vias

O sistema óptico do olho forma uma imagem invertida na retina. Córnea e cristalino participam da focalização, enquanto a pupila regula a entrada de luz e influencia a profundidade de foco.

A representação de cada metade do campo visual no hemisfério oposto envolve a organização das retinas e o cruzamento parcial das fibras no quiasma óptico. Na principal via visual, informações do hemicampo esquerdo seguem para o hemisfério direito, e vice-versa.1

Franz Joseph Gall e a frenologia

Franz Joseph Gall (1758–1828) associava faculdades mentais a partes do cérebro e buscava inferi-las a partir das características do crânio. Essa tradição ficou conhecida como frenologia.

Embora a correlação entre saliências cranianas e traços morais ou intelectuais tenha sido refutada pela neurociência, os debates inaugurados por Gall fomentaram a compreensão moderna sobre a arquitetura cerebral:1

  • Especialização regional: áreas corticais específicas desempenham papéis diferenciados em processos como visão, motricidade e linguagem.
  • Integração em redes: funções cognitivas complexas dependem da conectividade dinâmica e da cooperação entre múltiplos circuitos distribuídos.

Neurocirurgia moderna

Com os avanços da neurocirurgia moderna, desenvolveram-se equipamentos e técnicas que permitem acessar regiões profundas, produzir lesões controladas ou estimular estruturas nervosas com precisão.

Alguns objetivos atravessam a história: aliviar compressões, tratar consequências de traumatismos, controlar sintomas e preservar funções. A precisão anatômica, os instrumentos e a compreensão fisiológica transformaram as possibilidades de intervenção.

Semelhanças visuais entre aparelhos históricos e modernos refletem desafios universais de fixação craniana e acesso cirúrgico, embora a neurocirurgia contemporânea opere com fundamentos fisiológicos, controle de esterilidade e navegação por imagem inexistentes no passado.


Síntese

  • Observar efeitos pode anteceder a compreensão dos mecanismos. Uma prática pode surgir da experiência antes que exista uma explicação fisiológica adequada.
  • Conhecer a anatomia e compreender a função são problemas diferentes. Identificar uma estrutura não revela automaticamente o que ela faz.
  • Registrar experiências permite acumular conhecimento. Papiros, tabuletas, compêndios e traduções conectam pessoas e períodos.
  • O conhecimento circula entre culturas. A história reúne contribuições de diferentes sociedades, com continuidade, revisão e transformação.
  • Reconhecer limites também faz parte da medicina. Avaliar a gravidade e a possibilidade de tratamento aparece em documentos muito antigos.
  • Uma boa explicação precisa corresponder às evidências. Prestígio de um autor, antiguidade de uma prática e plausibilidade de uma hipótese não bastam para validá-los.

Referências

Fonte principal:

Aula História da Neurocirurgia na Antiguidade, do curso de pós graduação em Neurociências da FMUSP, 2026.

Fontes complementares:


  1. BEAR, Mark F.; CONNORS, Barry W.; PARADISO, Michael A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. Capítulos 1, 7 e apêndice, 9, 10 e 19. ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎ ↩︎

  2. PENN MUSEUM. “Medical Tablet”, proveniente de Nippur. Registro de acervo. ↩︎

  3. SAXON ACADEMY OF SCIENCES AND HUMANITIES. Kahun Gynaecological Papyrus. Projeto Science in Ancient Egypt. ↩︎

  4. BREASTED, James Henry. The Edwin Smith Surgical Papyrus, Volume 1: Hieroglyphic Transliteration, Translation, and Commentary. Chicago: University of Chicago Press, 1930. Para a datação em torno de 1600 a.C., ver também o histórico do acervo da New York Academy of Medicine. ↩︎ ↩︎

  5. UNIVERSITÄTSBIBLIOTHEK LEIPZIG. Ebers Papyrus. Acervo e exposição permanente. Tradução acadêmica disponível no projeto Science in Ancient Egypt. ↩︎ ↩︎

  6. SORTA-BILAJAC, I.; MUZUR, A. The nose between ethics and aesthetics: Sushruta’s legacy. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2007. Ver também The history of nasal reconstruction, 2021. ↩︎

  7. SUSHRUTA SAMHITA. Sharirasthana, capítulo V: The anatomy of the human body. Tradução de Kaviraj Kunja Lal Bhishagratna, 1911. Seção sobre estudo e dissecção de cadáveres. ↩︎

  8. Trepanation in Ancient China. World Neurosurgery, 2017. ↩︎

  9. CHEN SHOU. Biography of Hua Tuo, em Records of the Three Kingdoms. Chinese Text Project. Para a distinção entre o relato biográfico e a narrativa posterior de trepanação, ver A Hole in the Head: A History of Trepanation, MIT Press Reader. ↩︎

  10. Herophilus, Erasistratus, Aretaeus, and Galen: ancient roots of the Bell-Magendie Law. Neurosurgical Focus, 2007. ↩︎

  11. Eponyms of Cranial Neurosurgical Instruments: An International Collaboration to Optimize the Field of Neurosurgery. World Neurosurgery, 2021. ↩︎

  12. Paul of Aegina (625–690): His Work and His Contribution to Neurologic Surgery: Trephinations and Laminectomies in the Dark Ages. World Neurosurgery, 2018. ↩︎

  13. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE. The Arabic Contribution. Exposição An Odyssey of Knowledge. ↩︎

  14. NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE. From Translation to Teaching. Exposição An Odyssey of Knowledge. ↩︎ ↩︎

  15. Al-Zahrawi (936–1013 AD): On the Surgical Treatment of Neurological Disorders by the Father of Operative Surgery. World Neurosurgery, 2024. ↩︎

  16. KUSHNER, David S.; VERANO, John W.; TITELBAUM, Anne R. Trepanation Procedures/Outcomes: Comparison of Prehistoric Peru with Other Ancient, Medieval, and American Civil War Cranial Surgery. World Neurosurgery, v. 114, p. 245–251, 2018. DOI: 10.1016/j.wneu.2018.03.143. ↩︎

  17. From the wax cast of brain ventricles (1508–9) by Leonardo da Vinci to air cast ventriculography (1918) by Walter E. Dandy. Revue Neurologique, 2020. ↩︎