Google I/O 2026

Essa semana aconteceu mais uma edição do Google I/O apresentando novidades do ecossistema de produtos. Nesse post eu trago um resumo das novidades e algumas reflexões sobre o mercado.
Longe de discussões teóricas ou promessas futuras, os números da empresa mostram uma realidade muito positiva. O Google possui hoje 13 produtos com mais de 1 bilhão de usuários cada, sendo que 5 deles têm mais de 3 bilhões. O AI Overviews tem 2,5 bilhões de usuários ativos mensais, impulsionado diretamente por sua localização privilegiada na interface de busca.
O uso do Gemini atingiu a marca de 900 milhões de usuários ativos mensais em abril de 2026. A integração dos novos produtos de IA ocorre sobre um ecossistema completo de produtos já estabelecidos e uma base instalada de clientes já consolidada. Dois fortes diferenciais competitivos do Google na corrida da AI.
Enquanto o mercado debate a sustentabilidade financeira de startups dedicadas exclusivamente à IA, o Google tem resultado recorrente muito forte. A Alphabet projeta um investimento em CapEx entre 180 e 190 bilhões de dólares para este ano, um aumento de aproximadamente seis vezes em relação a 2022. Essa força financeira permite direcionar investimentos massivos e consistentes para iniciativas de longo prazo, sem qualquer dependência de capital externo.

Esse foi mais um ano de grandes novidades, principalmente em produtos de IA. Segue um resumo:
Hardware
O desenvolvimento de hardware proprietário continua sendo um dos maiores diferenciais competitivos do Google. Com mais de uma década de desenvolvimento focado em sua linha de processadores customizados, a empresa anunciou dois modelos especializados: o TPU 8t, otimizado para o treinamento de grandes modelos, e o TPU 8i, otimizado para inferência.
Essa especialização ataca problemas críticos: custo e eficiência. Ao criar o hardware proprietário e integrar com software também proprietário, como o JAX, o Google reduz drasticamente sua dependência de fornecedores externos. Na ponta da operação, essa estratégia significa menor latência para o usuário, menos custos de processamento e maior velocidade na construção de novos modelos e produtos.

Modelos e Agentes
Gemini Omni
No campo dos modelos de fundação, o destaque foi o Gemini Omni. O modelo de mundo multimodal focado na consistência de objetivos e conceitos de física, permitindo a geração de vídeos de alta fidelidade a partir de diversos formatos de entrada (texto, áudio, imagens ou vídeo).
Gemini 3.5 Flash
Para eficiência pura de custos, foi apresentado o Gemini 3.5 Flash. Um modelo focado em alta velocidade de geração de tokens com capacidade de processamento analítico comparável aos modelos top de linha do mercado. A eficiência operacional do Flash foca na redução dos custos ao consumir o modelo em larga escala (uma grande diferença no orçamento de IA para as empresas).

Antigravity 2.0
O lançamento do Antigravity 2.0 mostra uma mudança no fluxo de desenvolvimento. A ferramenta deixa o modelo de IDE tradicional para focar estritamente na orquestração e gerenciamento de Agentes.
Na prática, o desenvolvedor agora trabalha combinando dois programas. O Antigravity centraliza a delegação de tarefas e o contexto do projeto, enquanto qualquer IDE de preferência do usuário serve como interface para visualizar e editar o código manualmente.
Essa mudança consolida uma transição clara no papel do profissional. O foco deixa de ser a escrita de código para se tornar o gerenciamento de conhecimento.
Gemini Spark
O Gemini Spark funciona como um agente pessoal focado na execução autónoma de tarefas. Ele roda continuamente, 24 horas por dia, sete dias por semana, operando em uma máquina virtual. O usuário pode enviar múltiplas demandas em uma única requisição, e o sistema quebra essas tarefas para executá-las em paralelo. Como o processamento ocorre em segundo plano, os fluxos continuam ativos mesmo após fechar o aplicativo.
O diferencial estratégico está na integração com o ecossistema. O agente possui acesso nativo ao Gmail, Google Drive e Chrome, com expansão prevista via protocolo MCP para ferramentas de terceiros e gerenciamento das tarefas no Android Halo (disponível em breve).
Essa capilaridade técnica resolve o principal gargalo dos agentes atuais: o contexto. Ao consolidar os dados históricos e as ferramentas que o usuário já utiliza, o Google cria uma barreira de entrada difícil de ser replicada pela concorrência.

Busca
Interface
A interface de busca passa pela sua maior transformação dos últimos 25 anos, aproximando-se de um modelo puramente conversacional. O crescimento consolidado do AI Mode ao longo do último ano alterou radicalmente a dinâmica de navegação.
Particularmente, sinto essa mudança no dia a dia. A inserção de termos tornou-se mais longa, natural e descritiva, eliminando a carga cognitiva de tentar adivinhar as palavras-chave exatas. A consequência é que eu acesso sites do resultado da busca muito menos do que antes.
A nova proposta integra nativamente a busca tradicional, o AI Overviews e interações multimodais com textos, imagens e arquivos em um único fluxo contínuo.
Agentes
Além da mudança de interface, a busca passará a integrar Agentes. O usuário poderá configurar tarefas complexas diretamente na barra de pesquisa, como monitorar o mercado imobiliário sob critérios restritos de preço e localização.
O Agente executa a varredura na internet em segundo plano de forma contínua. O sistema trabalha de maneira assíncrona e envia notificações consolidadas apenas quando encontrar algo relevante.
Generative UI
A inovação mais diferente é a capacidade de Generative UI, alimentada pela integração com o Antigravity na busca. A partir de uma necessidade do usuário, o sistema interpreta a intenção do usuário, escreve o código em tempo real e renderiza componentes ou widgets interativos totalmente customizados para aquela necessidade.
É possível interagir, evoluir as funções do widget e consolidá-los em um dashboard personalizado. Essa operação em escala para bilhões de requisições só se torna viável devido à velocidade do Gemini 3.5 Flash, que processa e executa a aplicação gerada dentro de um container Docker individual em segundos.
Google Shopping
Compras com Agentes
Mais de 1 bilhão de pessoas realizam compras diariamente através do Google, que consolidou um catálogo massivo com mais de 60 bilhões de produtos listados. Para transformar essa vertical, o ecossistema introduziu três pilares de arquitetura de software:
- Universal Commerce Protocol (UCP): Um padrão open source desenvolvido para normatizar a comunicação técnica direta entre agentes de IA e vendedores.
- Agent Payments Protocol (AP2): Protocolo focado em transações seguras, permitindo que os agentes concluam compras de ponta a ponta em nome do usuário, respeitando limites e premissas financeiras pré-estabelecidas.
- Universal Cart: Um carrinho de compras inteligente e agêntico que opera de forma transversal entre diferentes lojistas da internet.
Na prática, o usuário pode adicionar itens ao “carrinho universal” do próprio Google enquanto navega pelo YouTube, Gmail, Gemini ou Busca. Os agentes comparam preços, emitem alertas de descontos e validam a compatibilidade técnica dos itens (como checar se uma placa-mãe é compatível com um processador específico). A transação pode ser finalizada diretamente via Google Wallet, sem a necessidade de acessar o site do lojista.

Impacto no Varejo
Vejo um impacto grande para os varejistas tradicionais nesse modelo. Ao centralizar toda a jornada dentro do ecossistema agêntico do Google, os lojistas perdem o controle direto sobre a experiência de navegação do cliente e o poder de barganha de suas plataformas.
O resultado provável será uma comoditização ainda maior dos produtos. A decisão de compra ficará concentrada puramente em preço e tempo de entrega, o que deve comprimir margens operacionais que já são historicamente apertadas.
Gemini App
O aplicativo Gemini atingiu a marca de 900 milhões de usuários ativos mensais. Após um ano marcado por lançamentos como o Gemini Nano Banana, Veo e Lyria, além da integração com o NotebookLM, o produto recebe uma atualização em seu design.
Neural Expressive
A interface foi completamente redesenhada sob uma nova linguagem de design chamada Neural Expressive. O foco está na usabilidade sensorial, trazendo animações fluidas, feedback tátil e uma identidade visual que facilita a encontrabilidade de recursos e a geração de conteúdo.
Agentes no Gemini
A evolução do app marca a transição de um assistente consultivo para um executor de ações. O primeiro grande reflexo disso é o Daily Brief, um organizador matinal alimentado pelo Gemini Spark. Ele não se limita a resumir dados: o agente cruza informações do seu calendário, emails e gerenciadores de tarefas para estruturar e planejar ativamente o fluxo do seu dia.

Para os próximos meses, o ecossistema projeta uma expansão via protocolo MCP (Model Context Protocol). Essa integração vai permitir que o Gemini interaja nativamente com aplicativos de terceiros, aproveitando uma base já consolidada de parceiros de peso que aderiram ao padrão técnico do Google.

Outras melhorias
- Experiência Live Expandida: Inclusão de novas vozes nativas com suporte a sotaques e variações regionais para interações por áudio mais naturais.
- Respostas com Generative UI: O aplicativo deixa de ser um chat puramente textual. As respostas agora renderizam componentes interativos, widgets, imagens e vídeos dinâmicos diretamente na tela.
- Motor Omni integrado: O modelo Gemini Omni estará disponível nativamente no app, permitindo a criação e edição técnica de vídeos diretamente pela interface do usuário.
Criatividade
Google Pics
No ecossistema Workspace, o Google Pics surge como uma ferramenta dedicada para criação e edição de imagens, permitindo isolar, manipular e remover objetos específicos de uma cena de forma direta.

Stitch
Para a frente de design de interface, foi apresentado o Stitch. A ferramenta gera componentes de UI a partir de inputs em texto e permite a edição granular do layout conforme a necessidade do projeto. O design gerado pode ser exportado nativamente para o Google AI Studio, Antigravity ou Figma.

Google Flow
A plataforma focada na produção de mídias recebeu atualizações estruturais em vídeo, imagem e áudio:
- Agentes no Flow: O sistema agora orquestra a geração de múltiplos vídeos em paralelo e automatiza edições específicas em grande volume.
- Flow Tools: Introdução de recursos baseados em vibe coding, permitindo que o usuário desenvolva e compartilhe suas próprias ferramentas customizadas de edição dentro da plataforma.
- Flow Music: Um ambiente de co-criação musical onde artistas utilizam o modelo para estruturar arranjos, enviar ideias de composição e desenvolver faixas de forma colaborativa.
Intelligent Eyewear
Foi anunciado o novo óculos Audio Glasses. Desenvolvidos em parceria com a Samsung, Gentle Monster e Warby Parker, os óculos inteligentes funcionam conectados ao celular para permitir uma experiência de mãos livres.
O sistema utiliza o Gemini de forma contextualizada para interpretar o ambiente e comunicar-se com o usuário puramente por voz, de forma privada. A projeção é que a exibição de conteúdos diretamente na lente seja disponibilizada no final do ano. Tenho muita expectativa para esse produto.

Gemini for Science
Ferramentas para pesquisa
As aplicações práticas em pesquisa ganharam um conjunto de ferramentas dedicadas sob o ecossistema Gemini for Science. O objetivo é acelerar o ciclo de descobertas científicas através de recursos específicos:
- Literature Insights: Assistente focado em ajudar pesquisadores na triagem e no acompanhamento automatizado de novos artigos científicos.
- Computational Discovery: Motor que converte objetivos macro de pesquisa em código executável
- Gerador de hipóteses com base no contexto de pesquisa
Saúde
A Isomorphic Labs está utilizando os modelos para mapear e modelar interações moleculares, redesenhando o processo tradicional de descoberta de medicamentos.
Projetos voltados para o tratamento de câncer e doenças imunológicas já avançaram para a fase pré-clínica. A ambição de longo prazo é transformar o processo de descoberta de medicamentos, para um dia resolver todas as doenças.
Conclusão
As novidades apresentadas deixam claro que o Google está décadas à frente de concorrentes nativos de IA, como OpenAI e Anthropic. Essa vantagem não está apenas na força financeira para investir em infraestrutura e ciência, mas fundamentalmente no poder do seu ecossistema.
Os produtos proprietários (e seus dados) fornecem o contexto que os modelos de IA precisam para gerar valor. Além disso, muitos desses produtos têm um efeito de retenção (lock-in) forte no dia a dia de bilhões de pessoas e a competição torna-se assimétrica.
A tese original que motivou a fundação da OpenAI parece estar se concretizando: sem uma alternativa, o Google assumiria o domínio do setor.
O mercado ainda enfrentará incertezas, inovação e mudanças regulatórias. No entanto, o principal fator de diferenciação nesta corrida não será a sofisticação dos modelos, mas sim o ecossistema construído ao redor dela. E, nesse aspecto, o Google larga com uma distância absurda a frente de qualquer concorrente.